Inventário do Ócio (2013)

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EST ANQUE

 

Converso comigo mesmo.

Não sou maluco.

Converso com versos.

Não sou poeta: tento.

Tanto tempo com tantos segui,

sonhando sempre sonhando.

Mas há o tempo em que sigo só,

não sei por quê.

Será que não consegui, talvez,

um certo sossego

de sonhar em paz?

 

As barreiras são transparentes,

quando se é cego.

O futuro é tão presente,

quando se é sonhador…

O presente é tão passado,

quando se é súbito.

E o passado é tão presente,

quando se sonha a dor.

 

Sigo sozinho.

 

Nenhuma mão suja

a me acompanhar.

Nenhuma palavra sórdida

a sondar meu caminho,

meus ideais.

Carrego um sorriso travado,

um choro contido.

E a certeza sóbria de que seria contigo

o meu prosseguir.

 

Abandonaste

a meta.

Como a pedra, sólida,

estanca n’água.

O resto… mágoa.

 


 

 

PORTA-RETRATO

 

Nos mares estancados

há ondas que não quebram

em praias virtuais

que existem belas.

E o sol, estupefato,

brilha sem brilhar,

no céu azulrosalaranjado

do poente sobre o mar.

O poente sobre a ponte

Rio-Niterói,

o poente do poeta,

o poente de sempre,

o poente de repente

vira para sempre poente,

e é bonito que dói!

 

E os amigos, abraçados,

sorriem sem parar:

estão juntos. São amigos;

seus braços não se cansam,

não sentem câimbra nas bochechas,

a cerveja não esquenta,

a música – que pena – é inaudível,

as bocas pronunciam algo que não lembro,

fazem bicos, embora nem sejam franceses;

mas, que importa?

Importa, sim, aquela alegria,

alegria tão efêmera…

agora transformada em: esta alegria.

 

A geladeira ártica

do tempo é a câmera

fotográfica;

o gelo é a fotografia.

 


 

 

O CALAR DO CALOR

 

Não sente que a fala

ausente

implode na gente um tremor cardíaco,

um calor contente,

um ranger de dentes…

qual um trem expresso trepidando os trilhos,

o nascer de um filho,

um falhar terrível

de articulações,

de entendimentos,

de momentos,

um… aumento

de… pudor?

Sente?

Sinto.

À mente eu minto,

esquivo-me.

Mas enfraqueço.

E arquivo-me.

Esqueço.

 

Ah, a paixão é um pé

e a palavra, um… um calo.

Por isso, não falo.

 

Calo.

 


 

VERBORRAGIA

 

Há um mistério bonito

em ser o que sou

e não saber o que sou.

Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo

é um ir e vir de coisas, seres, experiências,

é movimento.

Não sei o que sou porque não sou o que,

sou oco.

Ser não é ser, mas estar

sendo, ser

estando.

E serestando as pessoas som,

porém soo diferente,

pois é preciso eu não ser eu

para saber o que sou.

Portanto, ser é estar: to be.

O verbo em mutação conjuga a liberdade

de expressão.

 

Se no princípio já era o Verbo,

o presente é o meio

que no futuro será fim.

Quero being; nunca serei-a.

 

Nunca serei,

nem nunca seremos:

o Nunca será.

_________________________________________

 

Eu não pedi a pureza plácida

digna dos deuses comuns.

Eu me fiz.

Eu me faço.

Eu: Mefisto.

Mefisto-me?

Visto-me!

Firo-me. Fire.

O meu poder é flácido,

digno dos dogmas,

magma dos males.

Eu sou a fatia de mim mesmo.

Sou a faustia de mim mesmo.

Sou a ênfase do eu,

do eu fui em fase de eu sou

do eu sou em face do que sempre fui.

Eu sou o que sou e sou o que já fui,

e sou ainda o que ainda serei:

sou a somatória do ser presente

que soa em todos os tempos passados e                 futuros.

No meu tempo eu sou rei: mando eu.

E se quero ser rei, sou.

E se o quero, serei: eu posso.

Meu tempo passa e eu contemplo;

meu templo é oco e eu completo.

Do ser repleto eu sou o osso,

o fóssil, o fácil…

um poço.

 


 

 

MUNDO É GERÚNDIO

 

Mundo é gerúndio.

Girando

em órbita e no eixo inclinado de sua relatividade,

entrega os homens à velocidade,

misturando-os entre si.

O globo refletindo, centripeta-se;

mas desentende o que é, resistindo:

centrifuga-se.

Segue

cumprindo a imutável lei universal

da mutação.

Um curso cego para uma esfera girando,

globo ocular incapaz de enxergar-se.

Não cegue quem que não te segue,

planeta mudo,

silenciando teus mistérios e negando respostas.

Calas em desespero perguntas ao ar.

Ecos atmosféricos.

 

O mundo é gerúndio.

Ele traz, leva, tem consigo.

É aquele que faz.

O mundo é gerúndio.

Girando.

Gerando.

 

Mundo de atritos, atribulado,

deslizando em elipse no vácuo.

Cria tensões, dilúvios, catástrofes,

todo tipo de desconstrução e tragédia.

Expele-se, segrega-se, sangra.

É pérola e ostra, obra e artista.

Compondo o que é, dramatiza-se.

Encena seu trajeto interno,

registrando-se.

Gere em ritual: dança, canta.

Dança mundana e divina,

música em clave de Sol: dó de si.

 

O mundo é gerúndio.

Girando.

Gerando.

Gerindo.

O mundo é gerúndio.

Epíteto: Sendo.

 


 

ANAMORADA

 

Escrevo para a namorada que não tenho:

a figura utópica platinada,

a mulher dourada, adorada e lânguida;

a alegria onírica e nublada, certeza frágil

imprecisão.

Poesia errante que consola um nada que há em mim.

 

Efêmero é o ócio em que a concebo deusa.

Infinita é a ponte que nos separa.

Há um abismo, sei, um vale imenso,

pomar de metáforas – algumas verdes, outras podres –

e um cavalo alado para percorrê-lo, também.

Escolhi a ponte. O porquê não sei…

 

Remei com versos plúmbeos

e naufraguei no mar da liberdade.

Saciei a sede num copo d’água. Era fino vidro:

não se quebrou, cortou-me o lábio.

Caco de sangue coagulado

fere mais do que cicatriza.

 

Tudo isso são bobagens, frases ao ar, palavras aleatórias…

Tal retórica de nada serve:

brincadeira de mau gosto.

Dou meu rosto à palmatória e a mão à poesia:

façam deles o que quiserem.

Há metafísica bastante para encher seringas descartáveis.

 

A mulher que não tenho é a Arte, e seus cabelos são longos.

Se oferece nua e seu corpo é amorfo.

Um balé de olhos e ouvidos passa por mim e danço;

as pernas do entendimento são paralíticas,

mas o que se move é intuitivo e sólido,

fossilizado em mim.

 

Tenho uma deusa e tive algumas namoradas.

Em cada uma, diferentes filigranas.

Muito amei a todas, mas

penetrar na Arte exige ereção de ideias…

Calma: nenhuma ansiedade.

A melhor conquista e noite são demoradas.

 


 

 

LIVRO

 

Queria me ver livre das páginas amareladas

e de todo cheiro de conhecimento novo

em forma de pó.

A embarcação de papel me leva

ao mundo abstrato de imagens em ação,

mundo leve de formas pesadas.

 

E a concretude se desdobra em sonho,

o onírico se esvai em letras…

a multiplicidade latente de sentidos

altera-se em lápides esculpidas à mão,

unilaterando todo um universo.

Literatura.

Lápis em punho destruindo em signos

o insignificável.

 

Fui moldado às folhas mil,

minha capa dura não se dobra, move-se

apenas o suficiente para abrir caminho

a uma tênue cicatriz de ideias.

Folhas falhas, filhas de um sentimento fútil

de aprisionar palavras, antes

pensamentos, folias…

Fui moldado e sou retangular.

Reta angular. Tijolo.

Pa – ra – le – le – pi – pe – da – da

na vidraça do ser.

 


 

 

PURGATÓRIO DE PALAVRAS

 

Padeço.

O mundo lógico impõe seu preço: palavras.

Quantas vezes não morremos feridos por elas?

Sílabas tônicas marcando o ritmo de nossos passos,

cartas marcadas num jogo de métrica. Verso,

agora verso o teu inverso, manejo

a tática de reverter-te, tateio

por entre as farpas paroxítonas, reviro

arames fortes com voltas várias, padeço

nas quatro linhas do mesmo cárcere. Seu servo

eu sou. Escravo.

Escavo

uma saída com a mão

direita, motor de ideias articuladas,

grafando um túnel na escuridão do caos;

e quanto mais penetro, mais me perco:

o profundo é vão.

 

Palavras:

vocábulos lavrados no palato do inferno,

vibratos vacilantes na garganta do diabo,

magma purgando das entranhas da ideia,

chagas de quem chora a incomunicabilidade.

 


 

ELE E ELA

 

I. Eles

 

Belo é ler-te os lábios sibilando longas linhas

de um livro em português:

lindos como as pétalas da flor,

da última flor inculta e bela,

deflorada pelo célebre Camões.

 

Lanças uma sílaba no ar,

calas no silêncio entre as falas,

que não falas: silencias em voz alta,

simulando beijos modelados pelas pálpebras

da tua boca de quem lê.

 

Olhos trocam flertes com as palavras,

libertando-as das folhas que enclausuram

a libido da leitura.

E, lentamente, língua e letras se misturam

numa cópula declamatória.

 

 

II. Análise

 

Belo é ler-te os lábios sibilando:

lanças uma sílaba no ar,

olhos trocam flertes com as palavras,

libertando-as das folhas;

calas no silêncio

entre as longas linhas de um livro

 

que enclausuram a libido

das falas que não falas:

silencias em português.

Lindos como as pétalas da flor,

da última flor em voz alta,

simulando leitura.

 

E, lentamente, beijos

modelados pelas pálpebras, língua e letras

se misturam numa inculta e bela

deflorada cópula declamatória

da tua boca de quem lê pelo célebre.

Camões.

 

 

III. Síntese ou título

 

ELE   E    ELA

L     E    ELA

ELE         ELA

ELELA

EL     E      LA

LELA

LÊ-LA

ELEA

ELE-A

  L  A

                                                                                                LOS ANGELES

LOSANG

ELES

 


 

 

MUDO

 

Eu mudo.

Não calo aquilo que emudece em mim.

Erram meus pés o colo do mundo,

eram de barro e jorravam terra no chão.

Hoje o que são?

Pés à paisana, asfálticos,

protegidos do negrume urbano.

 

Que toque os pés a pele da natura,

lave-os de argila e eleve às copas

o adubar-se do silêncio grávido

de um grito:

o de ser humano.

 


 

 

O QUE NÃO MORREU

 

O que não morreu

 

está por aí

a perambular

a insistir

e a nos convencer

de que não morreu.

 

O que não morreu

então permanece

mesmo se parece

que já foi demais.

 

O que não morreu

a si contraria

aos outros engana

Um fogo sem chama

um mato sem guia

um morro sem pico

um berro sem grito

um quarto sem cama.

 

O que não morreu

edifica

ressuscita.

 

Assim somos nós

e estamos aqui.

Pois o que não morreu

merece estar vivo.

 


 

TEATRO

 

Quem és tu que distante me tentas

tanto quanto eu tento me livrar

de louvar-te? Quem?

Quero me livrar de ti!

Sem ti estou

em ti. Estou só.

Só em ti estou só e em mais ninguém.

Somente te deténs em me ter

solitário.

Mas meu amor se derrete por quem

me retém. E me tens.

Portanto, amo-te.

________________________________

 

Estou atento, porém.

(um tanto tonto também)

Se te contento, está bem;

se te destrato, contudo,

desandas:

sentimentos contidos

ou em descontrole

são trôpegos;

evitar cultivá-los, no entanto,

é mostrar-se hermético,

antes, sem tato, sem ética.

Tolo. Imaturo.

_____________________________

 

A arte é sintética, sim.

É a crosta dos fatos

talhada no tempo,

as gotas memênticas decantadas,

a escritura filtrada da História,

é o canto pertinente do cogito.

_____________________________

 

Então nos resta calar.

E escutar, assim, o rumor

que brota dentro de nós,

artistas, nós

crianças crescidas

da trupe humana.

 

Nosso mundo é o Teatro

(não o teatro-do-mundo,

dos títeres românticos,

nem o mundo do teatro,

das vedetes tresloucadas),

essa fronteira entre lugar nenhum

e a concretude impactante.

Teatro, este muro suave

entre o ser e o não ser.

Teatro, esta liberdade no curso dos fatos,

esta comédia sem graça,

esta desgraça divertida,

esta tragédia necessária.

O lugar-de-onde-se-vê

o mundo,

observatório do Homem.

Teatro: palco da Humanidade,

espelho rachado do que somos.

____________________________________

 

Tu me tens e desisto de afastar-te.

Aceito a solitude de perguntas que jamais,

jamais terão resposta jamais

e consinto que me tenhas

instrumento de tua arte.

Tua arte da inquietude.

 


 

AMORE

 

Amor,

doce miragem em que me perco.

Luar de noite em claro.

Em teu seio me retiro

daquilo que não sei,

conforto-me de um mundo grande.

Em teus braços sou mais forte

pois sou pleno.

Se o tempo fosse eterno,

em ti eu viveria…

Nos lábios um suspiro

insiste em te beijar:

 

O amor é como um sopro

– respire! Não pare!

 

Seja-me como sou-te.

Sejamos.

Eis a liberdade.

 


 

 

VÃO-SE OS ANÉIS

 

Duelo:

o anel e o dedo,

um ringue

que a mão finge.

 

Na palma,

as linhas formam

a renda

do tempo.

 

Rugas

traçadas por quem?

 

A mão humana

que busca

ou

que adeus acena?

 

Certeza

que a escrita tangencia,

palpite

que lateja entre as falanges,

 

escorre e nos escapa.

Areia da dúvida.

 

 

O gesto

entre o aplauso e o tapa

é o estalo

de entregar o rosto

 

estilo

de empenhar o gosto,

ter pulso

e empurrar-se ao alto.

 

Punho e unhas.

Minhas armas.

 

O resto,

um dedo em riste.

Se trágico ou ridículo,

desdenha-se o risco.

 

Se o braço forte

é triste,

importa é que

lutar preciso.

 

Celebro em luto

o tato que persiste.

 


 

A FLOR

 

Além do muro

a flor aflora

bela

porém oculta.

 

Por uma porta

ou janela

procuro a flor,

desejo tê-la.

 

Mas não há fresta

que ligue

a cor ao olho,

o lábio à pétala.

 

Prefiro o pólen

que inebrie

o espinho

que me corte,

 

a ser sozinho

na rua

a vagar

pela sorte.

 

Jardim fugaz.

Éden?

quimera

de bem-me-quer.

 


 

 

O ELIXIR

 

No exílio de mim,

a desmedida necessária,

dose báquica do não-ser,

ausência outra da vontade.

 

Sucesso e glória ardem lá fora.

O alcance é nada,

um dardo cego,

um gotejar dos cântaros

do vão,

diluída ambição

no pingo do descaso.

 

O vinho nobre do âmago transborda

cálice obscuro a abrir-se-me,

eclipse,

sede do deslumbre insaciável.

Ser duplo em êxtase, apaixonado,

querer sem rumo ou predicado

desfrute lépido,

conhecimento avesso do mundo.

 

Beber filosófico:

no ingerir decanto

o olhar curtido

do encanto.

Encontro o outro.

Troco.

Toco a intangível

falta permanente.

 

Abandono inconsequente ao ser

sozinho ser para vir-a-ser.

Devir de mim mesmo.

Dono do eu.

 


 

 

DESCOMPASSO

 

Moça, desculpa: não sei dançar.

Meus pés são ágeis pra fugir, apenas.

Que passa que não acerto o passo?

E piso o pé – ui! – e piso em falso,

só dou vexame no salão…

 

Moça do céu, vixe, que as pernas chegam a dar nó!

Se não há dança pra dançar só,

como fazer pra te acompanhar?

 

A orquestra para e sigo em frente,

escorrego e tombo – não há quem aguente.

Atropelo mútuo no baile da vida.

 

Estamos na pista e não temos par.

A música chama para dançar, mas

se vou, não danço,

se danço, erro.

 

A dança do amor, enfim,

é ridícula.

Bela.

Mas ridícula.

 


 

 

TEMPO QUE FOR

 

Descobri alegria.

Alívio por saber que havia,

oculta que fosse.

Do fosso da alma uma brecha

improvável rasgou

e de lá

da lama imunda

o mundo se mostrou outro.

Belo que seja.

E, sujas, as mãos escavaram pedras

negras de limo

– as unhas rotas como cascos.

A nesga de luz invade a treva,

em desvantagem a vence.

E vê-se a vida com os olhos

de retinas virgens: o verde,

o azul primário e o profundo,

a terra.

E o ar rebenta fresco no peito.

Respira-se!

Véus já não há. Vejo. Ouço. Sinto.

Certezas não tenho.

Sincero comigo digo:

“Espera, Rodrigo. Confia.

Ser apressado dissipa

essa brisa pueril.”

Difícil arte esta: crer

apesar das lembranças.

Mas, alegre por enquanto,

aguardo o tempo que for

pela boca em flor

desabrochando um beijo.

O teu.

 


 

 

NUA E CRUA

 

Na guerra do amor

não há culpados,

mas feridos.

 

O jogo do amor

não se perde nem se ganha.

Joga-se apenas.

 

É que no amar não há lamentos,

erros,

penas,

acertos.

Amar é sem certeza,

entrega cega.

 

O amor não impõe regras,

não cria jogos, nem faz guerras…

amor sem logos.

Nele há Eros, não Áries

Vênus, não Marte

servos, não mártires.

 

Aqui leões matam cervos

e devoram sem dó.

Pois se oferecer

em sacrifício

é não sofrer.

E só.

 


 

 

TEMPORAL

 

Desisto, então, e te deixo.

Sem despedidas,

sem último beijo.

O ar imóvel e abafado prediz

a chuva que virá.

Temporal.

E ruas inundarão, árvores vão cair,

a cidade será caos com o dilúvio.

Pessoas vão morrer (ou se salvar por um triz).

Mas não eu,

nem você.

Nem ninguém: lágrimas não matam.

As coisas vão mesmo esfriar, esvanecer

e com o tempo serão lembranças, só.

Um tempo de nos evitarmos.

Um tempo para ouvir o apoio de amigos.

Um tempo de nos esbarrarmos na rua

– tempo de formalidades, aquele sem olhares cruzados,

sem toques no braço do outro, sem sorrisos charmosos,

sem abraços apertados.

Em outros tempos, passamos por lá

de mãos dadas, sonhando.

O suspiro se foi e agora é o ar abafado

nos fazendo suar frio num calor desses.

Logo o tempo vira e a chuva virá,

intensa mas sem ira.

Sem pena irá lavar a mesma rua de água,

depois lama

e folhas e lixo e fezes.

E o que um dia sentimos jazerá

soterrado sob os pés

de mil homens e mulheres.

 


 

 

JÁ, MAS

 

Quantas amarras, mulher,

te impedirão de ser minha?

Quais?

Pois não há nada de mais

em amar assim.

 

Diz o teu sim

com a boca mais doce que beijei.

Vem comigo num abraço

cavalgar perdida

o lugar algum dos sonhos.

 

Não vês?

O destino é um bufão cego

a rir de nós. Porém

pra sempre grato serei

ao desencontro de te achar.

 

Gira o mundo com teu sopro,

Amor.

Dissipa a bruma da incompreensão

que nos divide da delícia oculta

do outro.

 

Agora fecha os olhos e conta.

Te mostra pronta pra mim.

Não há de ser nada, não há

ninguém contra o teu já.

Não põe na história esse fim.

 


 

 

DEVIR

 

Vem comigo, querida, enfrentar o mundo.

Estamos juntos, somos fortes.

Mil olhos nos veem, mas não sabem

o que se passa sob a pele do óbvio.

 

Vem comigo, querida, ser feliz,

verter lágrimas, lavar os dias

com o frescor de estar vivo.

A vida, antes de você, apenas passava.

Hoje, ávida, floresce em meio às horas,

contente e incontida em si.

 

Vem, querida, comigo ouvir

o cântico dos cânticos,

compô-lo novamente na melodia

ofegante de nossos peitos,

dois pomos rubros.

 

Vem tornar macio o correr do tempo:

mel e pétalas, a cútis do ócio,

derme que escorre

por entre os ossos do eterno.

Cio suave, estro do ser.

 

Vem, derrama esse ópio, essa ambrosia,

esse anestésico, alegria,

elixir que contagia,

esse dopar-se sem torpor,

esse algo, esse tudo, esse amor.

 

Transborda, querida, e vem

comigo porque eu te amo,

te amo como ninguém.

 


 

 

RIZOMA

 

Eu quero beijos e a incerteza

de um futuro.

O que está por vir, há

– e isso basta.

Do tremor houve as quedas,

as quebras, os cacos.

E com eles, os cortes.

E as colagens, as curas.

Mosaicos do que fôramos,

lembranças dançando na memória.

 

Assim somos: rizomas,

em fragmentos sendo,

dilacerados, loucos, santos

nas sendas da paixão.

 

Nossa vida é esta eterna sinopse.

Quero escrever-te em mim,

emaranhar-te no meu destino.

O amor é isto: um início sem fim.

Um descaminho.

Aqui nos achamos e nos perderemos.

 


 

 

TERRA

 

I.

 

Esta terra que tudo dá

é a terra santa que me mantém.

A terra estéril da seca é a mesma

que no cio da colheita

semeia o ciclo das estações,

fecundando sonhos e esperanças,

germinando choros, frustrações.

Eu sou filho da Mãe Terra, e muito mamo em suas tetas

sujas do barro que alimenta vermes

e da areia que move ampulhetas;

mamas rijas como as pedras em que tropeço,

e que jorra o leite escuro

de suas glândulas mais íntimas.

Terra ferida e marcada por cicatrizes geográficas,

que recicla a erosão em paisagens verdejantes,

e faz purgar a vida que perdura tempos, águas, lógicas.

Terra que eu piso e me dá diamantes.

 

– Ó, deusa Gaia,

virgem, gaja, gueixa…

mãe de todos os seres e não-seres,

aqui soluço uma guaia,

mistura de mágoa e queixa:

em teu seio vou estar

até quando me comeres!

 

 

II.

 

É em Minas que vivo Gaia plenamente.

Em Minas estou repleto de Gaia.

 

O árido e o fértil são polos, extremos

que temos em nós e em Gaia.

Gaia: complemento do Céu, e não seu oposto.

Nada vem de Gaia

porque

tudo de Gaia vem.

Gaia dá de tudo: dádiva

de opostos e complementares.

 

A ambiguidade, sendo derivada

da diversidade, também é

atributo de Gaia.

E a repetição.

A repetição também o é.

E devido à sua diversidade

e repetição,

Minas é um tributo a Gaia,

ou, simplesmente, dela dádiva.

Tal qual a poesia.

 

 

III.

 

E assim encerro:

ser maduro é estar verde para a eternidade,

ou, quem sabe, podre para o fim.

 

O que faz a planta nascer e morrer

é o que há antes dela:

a terra, útero da existência.

E no entanto, ela – a terra

– não morre junto com a planta.

A cinza não é mais cinza, mas argila,

quando a vida come a morte,

que comeu a vida sobre a terra.

A morte é o húmus que aduba

e a semente verde é o esperma.

Terra:

ávida de morte,

grávida de vida.

 

Ser maduro é estar apto a ser colhido,

e a colheita exige uma dureza maleável como o solo:

madureza.

 


 

 

TREVO

 

Poucas coisas, raras.

De todas (cantos,

risos, prantos,

copos, pratos, taras…)

uma, e somente uma,

é graça e sorte

e leve e forte.

Somente uma,

coisa rara,

no meu mundo é

você.

 


 

 

MOVIMENTO Nº 7

 

: Cansaço.

Nado contra,

nada faço.

Nada fácil.

Desassossego que persegue,

que persiste,

desencontro em trânsito,

tráfego fatal,

declínio, desastre, clausura.

Arte da inércia.

Cláusula de desistência.

Inépcia de ser.

Des-ser.

Não ser.

Descer ao Hades,

ao fundo do poço.

Aniquilar-se.

Anular-se assim.

Não-sim.

Fim

do túnel.

Findo percurso.

Finitude.

The end.

Nada.

 

Que nada!

Recurso.

Remendo das Moiras.

De novo sendo.

Nascendo das cinzas,

Fênix.

Tânatos derrotado.

Apologia apolínea:

luz, beleza.

Apogeu.

No topo, eu.

(Allegro

– ma non troppo)

Totem.

Zênite.

Zen.

Almejo.

Alço.

Alcanço.

Só eu comigo.

Só sem cansaço.

sigo.

Consigo.

Go.

Gol!

:

 


 

 

CONFISSÃO

 

A hora morta

em que as luzes silenciam

é quando gritam pavores

bem dentro de mim.

 

Assim convivo com o temido

e calo aos poucos o faminto

que me habita,

o ser voraz que move a vida.

 

Qualquer delírio assombra,

Mesmo o mais ínfimo.

Estou náufrago de esperanças,

estupefato em apatias.

 

E a vida passa.

 

Porém, no fundo íntimo do abismo,

além do ego e daquilo

que turva, fere e deforma,

existe um farto que grita

não de temor,

mas de gana.

 

Uma centelha que clama

por incendiar-se.

 

Esse desejo da alma,

esse saber-se infinito

espera inquieto e me devora.

Essa latência do grito

é desde sempre, é sempre agora

é um atraso que não tem hora.

 

Este sou eu, pleno, inconformado

por parecer o fraco que chora.

 


 

 

DA TRISTEZA

 

A tristeza é esse esvaziamento

bem dentro da gente,

um ruir que abre espaço

pras coisas internas.

 

E o olhar contempla,

intentando assimilá-las

e completar a gente

do que vem de fora.

 

Não quero ser

um poeta da tristeza,

mas entendê-la,

revelá-la bela.

 

Porque quando se está triste

um senso novo se abre

e percebe

a oclusão do existir,

a fugacidade intermitente,

as cores desbotadas,

ancestrais,

de que tudo é feito.

 


 

 

AHORA

 

Apesar de mim, um passo e outro adiante

a pisar assim a incerteza dos vãos.

Apesar do fim, um início confiante.

A pesar um sim, no deserto de nãos.

 

Vou embora porque sim.

Vou, embora haja um fim.

Vou lá fora, hoje, assim.

Voo agora para mim.

 

Posso um passo,

posso outro.

Fora, passo

Dentro, um poço.

 

Um fica

Um passa

Um piso

Um passo

Um salto

Um poço

Um voo

Um pássaro.

 

No vão

eu vou.

Deserto

adiante.

Um centro

incerto.

O sim

e o não.

 

Em mim

um outro

assim

assaz

Passada

a hora

Agora

já(z).

 


 

 

DÁDIVA

 

Conceber é também ser

um pouco Deus.

Requer um zelo sábio,

desapegado,

de entrega,

que só os plenos sabem.

 

As mães são plenas.

Levitam como plumas

mesmo nas tormentas,

deságuam lágrimas por nada

e ainda assim não secam.

As mães são esses seres

fortes e suaves,

provedoras abundantes,

fontes de afeto e consolo.

 

Só nos recônditos das mães

a gente encontra isso:

o sossego mágico da gênese,

silêncio grávido de caos

que é a vida em seu começo.

Ouçam!

 

Uma mulher agora é mãe.

Nela há mistério e comunhão,

frutos de um encontro.

 

Mulher sagrada.

Abençoada.

Dentro dela

uma vida se segrega,

sangue do seu sangue,

sopro no seu ventre.

 

E, assim,

viver

já não é como antes…

 


 

 

LEMBRANÇA

 

Não use a memória

para lembrar uma história

que mal começou

(ou começou mal)

 

Tenha na lembrança

sempre bem fresco

esse tesouro incontável

que é a vivência

– isso que olhos e ouvidos testemunham

e recortam do caos

ou resgatam boiando

no mar da incompreensão;

o que foi arruinado pelo tempo,

mas ruminado nas retinas;

o que maturou de ecoar na consciência,

o que fendeu a pele e a alma em cicatrizes

(ah, a sabedoria da cicatriz:

transmutação da dolorosa ferida

em carimbo na bagagem de vida)

 

Faça da memória crisálida da experiência,

alce voo

para além dessa perspectiva mesquinha

do rancor e da mediocridade.

 

Faça jus ao que já era, ao que jaz,

e não faça da lembrança um criadouro de defuntos,

deixe os fatos que morreram

descansar em paz

e lembre dos idos

sem a vivacidade corrosiva da mágoa,

mas apenas com a cor desbotada

que devem ter.

 

O sol voltará a brilhar

só se

antes de tudo você

aprender a se amar.

 


 

 

ESCONJURO

 

De lápis-lazúli

é a tua lápide,

ornamentando

o teu destempero.

 

Teu ócio jaz

com a vaidade

que corrói as horas

com pompa vã.

 

Nenhum afeto

adere à superfície

porosa

do teu ego.

 

Retira a tropa

da arrogância

do santo campo

de batalha.

 

Regride à tua

infelicidade,

regressa ao nada

que és. Recua!

 

Encontra a verdade

que paira sobre ti:

Repara a morte

que te sorri.

 

Se tudo passa,

não há quem possa

salvar-te, pois.

Repousa em paz.

 


 

 

A GURU

 

A guru profere

uma palavra,

uma sentença

ela vaticina.

 

De sua boca sai o destino

de homens e mulheres.

 

A guru é louca

e a loucura fere.

Mulher loquaz

sem moderação de palavras.

A guru fala muito,

não sabe ser guru.

Condena o logos,

mas é dele escrava.

 

Pobre guru,

mãe da mediocridade,

rainha solitária.

Usa seu dom

para conceber

e dar à luz

ideias estéreis.

Desperdiça-se.

 

Sim, a luz é necessária!

É a luz que revela,

não ela.

Quem só olha para a luz,

cega a si próprio

e já não vê,

alucina.

O que a guru diz

não vem da retina

nem do coração,

mas da mente.

É imaginação.

 

Nenhuma revelação,

nenhum espelho possível

para a guru.

O mundo não comporta mais

uma verdade.

O Homem não suporta mais

tantas certezas.

A guru não percebe o evidente:

a verdade é um aspecto.

E rejeita a filosofia – pena.

Não a rejeitasse saberia a verdade

como um espectro socrático.

 

Que a guru leia isso como quiser.

A guru, aliás, gosta de leituras,

mas não lê um livro sequer.

Quer ser guru. E só.

 

Sinto muito, gosto da guru,

mas vou deixá-la.

De agora em diante,

minha mestra é a Ação.

 


 

 

POESIA BRUTA

 

Quando há tempo de pensar na vida

é que a gente vive.

 

Vejo a Natureza sendo

e dela participo,

entendo intimamente

o mar se engastando no granito

– estas pedras que já foram,

com a África, a Pangeia.

E percebo que as ilhas são ligadas

pelo mais profundo vínculo

talássico

abissal.

E que o vento nos perspassa

do sopro que move as velas,

os moinhos, as correntes,

a História – até.

Vento do onde, do quando,

do além.

Vento que erode e areja,

que derruba e alça,

que esculpe e arruína.

 

Medo complacente do sublime.

 

Esta vida em estado bruto

sem o refinamento inútil,

nem a lapidação do efêmero.

Vida antiquíssima, ancestral,

repetição imemorial do ser-estar

e onde estamos encrustrados,

jazida inesgotável de mobilidades.

 

Pensar, então, sentir.

Ser, assim, amar.

 

No tempo de pensar a vida,

redescobre-se o amor latente.

 


 

 

NO DESERTO

 

Em torno do fogo

os antigos.

Reúnem-se, graves,

a decidir caminhos,

trabalhos, festejos.

 

Conversa pelo fogo,

olhos crepitantes,

falas em brasas ascendentes.

 

Em algum canto nosso

há uma fogueira.

Sintamo-la arder!

Consome e acende algo

de vital na gente.

 

No círculo de fogo,

os homens reunidos,

os sábios concentrados,

conclave ancestral.

Estranha celebração

da tribo humana

em roda ali sentada.

 

Aquela chama encontrada

ecoa na sombra da noite,

perdida na calada

cegueira da aldeia.

 

Em cantos os xamãs

nos chamam todos

a contemplar nossos vultos

uns nos outros projetados.

 

O cântico entoado

no meio do deserto

em meio a lobos,

lagartos e serpentes,

consola as almas melancólicas

como um bálsamo.

Do ventre do pajé

o próprio Verbo se desvelando,

cobrindo aquela noite.

Céu-da-boca celeste

manto de hálito sereno:

– Não falemos de morte,

mesmo que o tempo

revele o destino, a sorte

que nos cabe desde sempre.

 

Dentre os silvos e uivos,

escuta-se a voz

gutural

vagando no tempo.

Sóbria, simples, suave.

Chão para os desterros.

 

E, de longe,

o que se via

talvez

fosse o fogo

como um astro

dos incontáveis

no firmamento.

 


 

OS OSSOS

 

Nem só de ideias

nem de ideais

vive o Homem.

Ele carrega consigo

seu próprio esqueleto

arrastando sua ancestralidade

aonde for.

E essa herança

é também um legado:

lembrança estapafúrdia

do fim.

Dentro do Homem,

sustentando-o,

habita o fóssil

de si mesmo.

 


 

 

SALVE-ME

 

Salve-me daquilo que temo,

não do que desconheço,

mas da ignorância.

Não me salve da dor,

Salve-me do sofrimento.

Salve-me do trágico e do épico.

Da Ilíada,

Da Odisseia.

Salve-me de Dido,

salve-me de Eneias,

salve-me de Ésquilo, Homero, Virgílio.

Só não me salve de Camões.

Salve-me da peripécia

(seja latina, seja da Grécia),

da harmatia e do destino,

mas não me salve (nunca)

de minhas próprias mãos.

Salve-me dos mistérios

entre o céu e a terra.

Salve o meu verso pardo,

salve o meu choro,

salve o meu brado,

salve-me da inveja do Bardo,

e não salve a rainha da Inglaterra.

 

Salve-me do naufrágio

no mar das certezas,

da solidão da arrogância,

da inação.

Salve-me do que penso.

 

Salve-me do hermetismo,

da pompa, da verborragia.

Salve-me do eclipse,

da tangente, do seno

e de todo ceno da comunicação.

Da elipse

me salve

da zeugma

do pleonasmo

do hipérbato me salve

da anástrofe

de que tudo que é prolepse

assíndeto

sínquese

silepse

e principalmente chavão.

Salve-me da gramática

e do manual de redação.

Salve-me do certo e do errado,

da crítica e da condenação.

 

Porque hoje é o dia.

E só hoje.

Sem quaresma,

sem cinzas,

sem folia.

É no hoje que nasço,

que vivo, que morro.

É no hoje que acordo,

que soo

que desperto.

Neste dia que ouso

de tão longe chegar perto.

Salve-me do passado,

salve-me do futuro,

salve-me dos anos e das horas.

Salve-me do tempo.

Salve o agora!

 


 

 

PALAVRA MINHA

 

Minha paixão

é palavra

minha adição

é palavra

minha doença

é palavra.

A palavra é

minha salvação,

minha rotina e surpresa,

minha ingenuidade,

minha danação.

 

A palavra é minha

só minha

e de todo mundo

e de ninguém.

 

A palavra não é

só palavra.

Ela é coisa,

ela move,

ela acolhe,

ela fere,

ela entranha.

 

Coisa bela

e estranha,

a palavra.

 

Eu semeio a palavra,

eu a cultivo,

lavro

rego

podo.

Eu a colho, madura,

ao pé da letra.

Com o olho escolho

os frutos seletos,

tateio, provo,

reprovo,

saboreio

o paladar da palavra.

Doce palavra.

Pomar da língua

no quintal do Verbo.

 


 

 

AS CORES

 

As cores das horas,

as caras coradas,

os mares,

os lares dos olhos,

olhares.

 

Por todo lado se vê

o viço cromático,

tanta tinta derramada,

esparramada

sem medida.

 

Acidente colorido,

delírio do Belo.

Opulência para córneas,

pupilas,

retinas,

íris.

A cor é milagre da luz.

A cor é a luz

que dança nos olhos.

O que é chama de vida

e flameja nas coisas

chama-se cor,

vibração da luz

que ressoa na alma

de quem vê.

 

Ver é traduzir.

Ver, capturar.

Ver: ter para si

o que não é seu,

verter o outro

em eu.

 


 

 

REVELAÇÃO DO HOMEM

 

Eu sou o templo,

o odre em que descansa

o vinho eternamente novo,

eu tenho asas,

eu mesmo sou

eu mesmo

minha casa.

 

Eu sou o templo

que consagra

a carne,

eu sou o monte

que transfigura

a carne,

eu sou a carne

para além da carne,

eu sou o cerne.

 

Em mim o sangue

vivo

lateja

escorre

esvai-se

em mim se sagra

o sangue limpo

o sangue lava

quente

chama

e consome

o que é ímpio.

 

Eu sou

e estou

contigo.

Sem distinção

eu sou

tudo que é

eu sou o verbo

latente

a conjugação

do ser.

 


 

 

PULSÃO DE MORTE

 

Pulsão de morte

aqui: bem em mim.

Mal em mim.

Que força potente é esta

que temos,

destrutiva,

tormenta que move,

impele, abate?

Minha mão contundente,

ímpia,

impiedosa.

Minha mão contra mim,

Inimiga,

ambígua,

machuca a própria palma,

estapeia minha face,

esmurra meu estômago.

Estas minha mãos

que já foram de criança,

mãos que clamavam,

mãos que enxugavam lágrimas,

mãozinhas que brincavam.

Estas mãos.

Afastem-me os punhais!

Sou perigoso.

Atento contra mim,

cuidado!

Como posso ter cuidado comigo

se não cuido de mim mesmo?

Medo calado

que espreita,

inadvertido.

Ego incauto e voraz,

inconsequente.

Cego, em tudo capaz,

indiferente.

Este lado sombrio

é meu

e teu

também.

Ele irá nos perseguir

– a nós, sóbrios,

a nós, prudentes

bem formados

e independentes –

como uma sombra

insistente e tenaz,

está em nós como um cancro

incurável

uma cisão

uma falta

um recorte.

Ela,

nossa condição.

Ela,

pulsão de morte.

 


 

 

BILHETE DE UM SUICIDA

 

Estamos doentes,

um remédio, doutor.

Somos incuráveis,

mais morfina, por favor.

O corpo que temos é pouco,

é quase sem corpo,

a carne em tremor.

O pulso é sem força,

o peito, sem cor.

Demos todo sangue

em prol de progresso,

fama, sucesso,

mas só o que temos

somos nós mesmos,

sempre.

E hoje nos perdemos,

há muito,

no esquecimento,

no devaneio,

na omissão de nossas vidas.

 

Somos uns chatos

na vida dos saudáveis.

 

Socorro.

Vida vazia.

Fuga da confusão

turbulenta.

Estou me desligando

do mundo.

Estou por um fio.

Sinto calor e frio

ao mesmo tempo.

 

Doutor,

há cura?

 

Injeta qualquer coisa na veia!

Me faz sumir, doutor.

Me dissolve em algum infinito.

Me extirpa isso logo,

me arranca de mim,

doutor!

 

Me anima,

me reanima,

me mata…

mas me ressuscita.

Me ressuscita, doutor.

Porque o que eu quero

é tão somente

viver.

 


 

 

ETERNO RETORNO

 

Há atividade no deserto

sob a areia que torra e esfola.

Há felicidade no exílio,

à sombra do desterro.

Há cumplicidade no ostracismo

– voluntário que seja.

Há medo no aconchego

e tristeza no banquete,

um desejo pela morte,

e alívio na desgraça alheia.

Há até má fé no dó

e prazer na dor

e gozo no estar só,

e pode haver mal no bem que concebemos.

Mas não existe a menor possibilidade

de voltar no tempo

nem desfazer um rumo

sem o percorrer de novo

com outro sentido.

 

O eterno retorno

ronda à espreita.

Vamos chamá-lo,

tenha certeza.

Vamos desejar

nosso bem ou nosso mal,

você sabe.

Será nossa dor.

Porque a dor é da vida,

amigos,

mas o sofrimento é opção.

Nas certezas da vida

há sempre um senão.

E o sentido da vida existe:

ela só corre numa mão.

Em frente, em frente.

Sempre.

 


 

DESAFORISMO

 

No começo, o gosto:

 

Páprica na boca

picante lascívia

beijo travado

na ponta da língua.

 

Dangerous love

libertine

it’s also a sheep

you sleep with.

 

Coisa tardia surge

assim do nada

irrelevância que urge

na cútis cifrada.

 

Tendões do acaso

repuxam o amor,

entrega retida

imóvel temor.

 

Love me

leave me

let it

go.

 

Então um tempo

nem tanto intenso,

um dardo tenso

estanca o intento

e o momento denso

se dissipa assim.

 

O esboço, o storm

é passado a limpo

letra a letra

por extenso.

A limpeza estéril

é um sonho que arrefece

uma falta que atormenta.

 

Como um contorno

do cotidiano

silhueta em manto

a cobrir o lustro

a formar um lastro

a fazer um gasto

a deixar um custo:

consumir o apreço

e amargar desgosto.

 


 

 

INCONFESSÁVEL

 

Quando brinquei de deus,

foi que matei pessoas

que me imploraram a vida,

e manipulei povos na miséria,

e destruí em massa,

devastando terras e cidades,

contemplando as cinzas

do cume das montanhas.

Eu brinquei de deus

e persuadi os outros

à ganância,

ao ódio cego,

à ignorância

e à demência.

Eu gargalhava enquanto via

plácido

crianças agonizando

no solo seco

abortadas,

e velhas se esgarçando

decompostas

à minha espera.

Reduzi tudo a pó

– retornei tudo à origem, ora!

Não fui um deus,

mas um escravo

um verme escroto

ávido por poder.

O Poder!

Eu me lambuzei como um porco

no lodo pútrido do poder.

Lascivo, luxuriante, imundo,

um animal primitivo

ensebado em sangue viscoso

que se embrenhava devorando

devasso

aquela víscera ainda viva

latejante e quente

do Poder.

Abominável e abjeto ser

Parasitado pelo poder.

 

Esse fui eu.

Que deus eu fui

quando assim brinquei?

Não me levem a sério,

pois não sou um homem

como vocês outros.

Não sou nem um homem

e ainda assim brinquei de deus.

Hoje sou nada

como antes.

Mas silêncio!

Antes que me perguntem,

não sei explicar.

Não cometi um erro,

muito menos um acerto.

Eu só brinquei

de algo inconfessável.

 


 

 

BREVIDADE

 

O eu infalível

fora do limite,

o eu que não existe,

eu impossível.

 

Não vou dar valor à falta.

Tenho um corpo, veja.

Toque-me: é disso que sou feito.

Este volume, este peso, esta pele.

Eis-me.

Nem mais, nem menos, o mesmo.

O que sou agora.

 

É sempre no agora meu tempo

– até deixar de ser.

Então no quando eu não houver,

leia esta página e lembre-se.

E rasgue o corpo dessas ideias.

Será o confete para celebrar

que agora você vive,

ainda que ainda.

 

Lance no ar e celebre

a vida breve.

 


 

 

O ANJO

 

Ganhei o céu

e do alto alcei

um voo raso

sobre a humanidade.

Asas são como pés descalços

há liberdade e dor

e tropeços.

Sou falível como tu.

Meu sangue corre

e também escorre

para o chão.

A gravidade nos atinge,

somos irmãos.

Nossos destinos são um só:

a queda.

Para baixo

para baixo

para baixo.

Vertigem do salto

mergulho para onde?

 

Não chore agora.

Ainda espero por você no meu céu.

O mesmo céu tecido

por belos pássaros

suaves ou em chamas.

O azul límpido é falácia,

construa seus sonhos no mar,

ele sim verdadeiro,

cruel, vasto, mas finito

o mar esse estranho conhecido

entidade perdida

permeada de presenças.

Não é como o céu longínquo

e abstrato.

Tanto ar provoca angústia

e desamparo.

O céu não acolhe

e sou dissipado

pelas coisas que não sei.

Há tantas

tantas coisas que não sei.

Saberei um dia?

Quem sabe…

Tanto céu assim nos esvazia.

Prefiro então o mar

que me preenche as lacunas

e me afoga em seu denso acalento.

Sei, depois,

emergir urgente

e respirar afoito

o alento pleno do mistério.

Assim a vida.

Sigo náufrago

de algo há muito perdido,

mas, confiante na maré,

boio entre o céu e as profundezas.

Aceito o vento

e sigo.

 


 

Rodrigo Gerstner 2013. Todos os direitos reservados.

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