PRÓDIGO

Por mais longe que seja o destino,
há um caminho de volta
e uma paisagem para ser apreciada
do alto da montanha inóspita.
Um jovem andante vaga sem rumo,
seu destino é errar.
E assim ele segue.
Cego por suas certezas,
tem pedras nos bolsos.
Ninguém lhe importa e tudo lhe interessa.
Em sua ingenuidade perversa,
o mundo lhe pertence.
O que não é seu, ele toma,
saqueia sem cerimônia
e leva consigo uma parte dos outros,
como se conseguisse mesmo tal façanha
– isso de possuir o que não é seu por conquista.
Em volta, um rastro de sua insensatez:
lágrimas, dor, mágoa
enquanto ele ostenta, inconsequente,
com peito aprumado
uma nobre e falsa altivez.
Mas depois de afastar seus afetos
e ficar isolado, roto, triste,
o convívio com a imundície
feriu-lhe o orgulho.
Como um verme, o mundo lhe pisou,
a vida foi atroz e certeira
numa lição cruel e ao mesmo tempo bela.
Da cela do ego, o céu despontou
com brilho intenso
o amor dissipou o ranço da discórdia
e todo aquele rancor estagnado.
A porta da casa estará sempre aberta
ao jovem que deixou para trás seus entes.
Um pai resignado lamuria
por entre os dentes,
mas há festa pela volta.
Adornos à volta do jardim
onde as flores e as pragas
convivem em meio à beleza serena
e ao cuidado.
A morte está presente
como adubo, apenas.
Espinhos, pétalas,
risos e penas
crescem juntos
em frente ao lar.
Aquele mesmo lar.
Seja bem-vindo
novamente.

NA VARANDA

Sentada na varanda
Regina se deixou levar
pelo hálito da montanha
e a eletricidade no ar.
Ela reparou – veja só –
que há dança nas coisas.

– Não, não há dança nelas!
São dança elas mesmas,
comenta pela janela,
por entre uma rosa seca
e um cravo que viceja.

– Se já não sou como era,
ainda danço, veja.
Estava leve, ela,
na varanda,
como folha que voeja.

Regina olhava o céu
como quem conseguisse
ver o próprio tempo.
O balé da vida estava em seus olhos,
eu via.

Os pássaros, as palmas, a chuva.
E assim Regina deixou a varanda
para integrar a paisagem.

Da janela nós a vemos como a banda
de passagem
contando coisas de amor.

DO DESAPEGO

Aviso: comece já seu desapego
Mais um apelo neste mundo de apelos,
verdade.
Não ligue para isso, aproveite
enquanto há viço e deleite,
vida, dádiva.
É bem difícil abrir mão assim
dizer não ao sim constante
e ser cortante e suave.
Abra mão, então, deixe.
Zelo e cautela são carícias e aconchego,
proteção não é segurança
e enquanto a mão ávida
agarra todo bem,
o pé desapegado dança
sobre a terra nua.
Terra que é minha,
terra que é tua,
de ontem, hoje e além
terra de todos nós
e ninguém.
Desapego sem esforço,
sem ego.
Entrega
como na expiração.
Suspiro
de aceitação.

MANHÃ CHUVOSA DE UM SÁBADO QUALQUER

Minha total inaptidão
se esgueira nas sarjetas.
Por quê? – pergunto enquanto olho
as pessoas passando
os carros passando
a vida passando.
É ridículo, percebo.
Pergunto a quem, meu Deus?
Por quê, o quê?
Coisa mais sem sentido
perguntar isso assim…
Total inaptidão.
E ela se esgueira nas sarjetas
ou nas beiras das sacadas
de sobrados sombrios e encardidos.
Incapaz, meu rapaz.
As coisas todas assim
como inimigas urrando.
Versos não farão
a vida melhor
– lembre-se.
Podem ajudar a ruminar
a esquecer
a transgredir.
Melhorar, jamais.
Logo eu que sempre dizia
“nunca diga jamais”.
Enquanto isso assisto ao show
de luzes e sirenes
refletindo e ecoando nos prédios vazios
do centro da cidade
(minha cidade que migrou de si,
periferia erma de folias)

A CASA DA AVÓ

Na ladeira de pedras centenárias
banhada do suor de mil escravos,
em meio ao casario sóbrio
de paredes encardidas por um pó
antigo como o tempo,
está a casa da avó.

Em Minas, as famílias se encrustam
por gerações e gerações,
são a riqueza maior da gente
humilde e digna,
delicadeza bruta
que só o mineiro tem.

A avó está na sala, sentada,
apoiada na bengala de madeira escura,
junto aos móveis austeros
e à prataria enegrecida.
E lá fora a cidade peleja calma
no andor de quem palmilha
vagamente estradas pedregosas.

Lá fora, a cidade vela a casa da avó,
as senhorinhas nas janelas,
a torre da matriz,
a revoada dos pássaros,
os homens de chapéu.
Lá fora há um vazio
promissor de coisas,
de bênçãos, por certo
– afinal, estamos em Minas.
Lá fora, há um mundo vasto,
de mistério,
invisível aos nossos olhos,
que param nas montanhas de minério.
Lá fora, a avó tem a salvaguarda
de Carlos e Adélias.
Lá fora é Minas
e Minas, no fundo, também é a casa da avó.

LIVRO

Queria me ver livre das páginas amareladas
e de todo cheiro de conhecimento novo
em forma de pó.
A embarcação de papel me leva
ao mundo abstrato de imagens em ação,
mundo leve de formas pesadas.

E a concretude se desdobra em sonho,
o onírico se esvai em letras…
a multiplicidade latente de sentidos
altera-se em lápides esculpidas à mão,
unilaterando todo um universo.
Literatura.
Lápis em punho destruindo em signos
o insignificável.

Fui moldado às folhas mil,
minha capa dura não se dobra, move-se
apenas o suficiente para abrir caminho
a uma tênue cicatriz de ideias.
Folhas falhas, filhas de um sentimento fútil
de aprisionar palavras, antes
pensamentos, folias…
Fui moldado e sou retangular.
Reta angular. Tijolo.
Paralelepipedada
na vidraça do ser.